voltar Basilio Miranda
   
se me encontram...  
1972  
barbeiro de defuntos  
carnaval, boca do lixo/boca do luxo  
fim de século  
   
 
   
 
 

Se me encontram morto, amigos,
não me abandonem pálido.
Da cor mais vermelha,
meus lábios
pintai.

Se tristes te parecerem,
arranca, amada,
meus olhos
sem piedade deles.

Há em minha casa
vinho antigo
de Portugal.
Sem cerimônia, pressa
ou memória
bebei.


1972  
 

Lembra

aquele retrato
na parede
aquela parede
de botequim?

Sol indeciso
domingo deserto
recordo
teu vulto
em movimento de pedras,
jogo que se repete
e não espera susto
em manhã de frio e sombra.

Na tv o Brasil ganhava cores
e mortos sem cara,
quase apenas nomes
da cor do chumbo
pesada como chumbo.
Um riso que guarde seus dentes
em maxilares de gesto lento
feito pele e farpa,
fivela de aço fechada
na pele,
domingo, rua deserta,
aquele país
recordo deserto.

Eco
dos teus passos.
Outro eco
de outros passos.
Alguém te seguiu?
Eu te olhava. Você ria.
Tua pele ainda morena,
vontade calma
de atravessar o dia, o rio
de águas paradas,
o calendário
congelado
- há quanto tempo não chegam cartas.
E um 7 de setembro sesquicentenário
gordo de fartas arrogâncias
e pequenos sátrapas.

Som e luzes piscadas
da tv do vizinho;
enchente na Avenida do Estado,
mulheres de vassoura e rodo na calçada;
tiros seguidos de gritos, seguidos de
morte, nas proximidades
do monumento do Ipiranga;
vento fresco, começo
de vento frio
anunciando chuvas fracas
para o fim de semana;
manhã de pedra paciente,
o eco dos teus passos na rua deserta,
meu susto
teu susto,
você olhando para trás na rua deserta.

Som de pedra sobre pedra, sono
de sonho que se repete
boca seca, corpo suado
- até que o calor da noite
já se desfez na madrugada
e o sono desfeito em rugidos
trêmulos, incorporados
aos ouvidos
como tímpanos gelados.

Passo por lá.
Indeciso e pequeno domingo,
chuvoso e frágil
como antes.
Mesma rua
mesma manhã
mesmo país
mesmo botequim
de paredes encardidas.
O retrato também é o mesmo.
Mas o ditador parece menos atlético hoje.
E sobre o vidro,
cobrindo as bochechas pantheônicas,
uma pequena camada de gordura
e as primeiros pontos pretos
de cocô de mosca.


barbeiro de defuntos  
 

Para Jussara Hughes, inglesa e brasileira do Mato Grosso.

..............................................................................................
"Justificar a morte de negros e bois: Todo escravo que morrer justificará sua morte com gente da fazenda e de que morreu, e o mesmo será com os bois, para que de tudo haja clareza, e as crianças que nascerem fará assento delas."
...
"Castigar os negros: O castigo que se fizer ao escravo não há-de ser com pau nem tirar-lhe com pedras nem tijolos e quando o merecer o mandará botar sobre um carro e dar-se-lhe-á com um açoite o seu castigo; e, depois de bem açoitado, o mandará picar com uma navalha ou faca que corte bem e dar-se-lhe-á com sal, sumo de limão e urina e o meterá alguns dias na corrente. E sendo fêmea, será açoitada à guisa de baiona dentro em uma casa com o mesmo açoite."

João Fernandes Vieira - capitão-do-mato, feitor-mor, dono de engenhos.

..............................................................................................
"Pertenço a um gênero de portugueses
Que depois de estar a India descoberta
Ficaram sem trabalho(...)"

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos - "Opiário".



Calos do morto
hábitos comedidos
de meio-fio e esgoto.

Oficiais de exéquias
e requintes;
tântalos, tântalos,
antigos e tantos;
o oficial de órfãos
o oficial de ausentes
o barbeiro de defuntos;
longos, monges,
cravina de túnis,
algodão e alfanje,
em branca túnica
confeccionada a tempo
pelo alfaiate de mortalhas.

Como em um poema antigo de negros, porões, infâmias, feitores
e troncos;
chicote, gritos medonhos;
alegoria de algozes
de seu próprio musgo
renascida.
E medo
e gargalhadas desprezam
o medo,
exibindo seu busto e esse verde riso
desbotado, estampado em barbas
de musgo e bronze
e nas sombras
das largas abas
de hediondo chapéu.

Ofícios, calos e hábitos do morto
à sombra da santa cruz;
uns de Sagres lançados
à própria sorte
vagam por adamastores
e infinitos sem horizonte;
outros de lá saídos
finitos, hereditários
para a glória fátua
de reis fracos.

Ouvidores,
capitães risonhos,
carruagens carregando airosos bigodões.
Ordenadores,
bragantinos,
afilhados
de João das Regras.

Sepulcros
subitamente abertos
como quando
o vento
faz a porta bater:
caprichoso, o feitor ajeita a chibata;
testa-lhe a firmeza, o estalido;
esperta, ágil
língua de experiente réptil.
E vai sumindo, sorrateiro, sombra distraída
que repentinamente
dá por falta
do seu vulto.

Formigas trabalhadeiras carregam
baratas mortas;
capitães brancos
negreiros negros
monges de algodão e alfanje -
como quando os deuses da morte
cumprimentam cordialmente os deuses do morto.



Tradição do meu país,
fantasmas visíveis ao correr do dia
nas calçadas, ruas
esquivas, esquinas
de curvas avaras
e ávidas feições
pequenas
em pele nua e rápidos
avatares
de pele em carne e carne
em pele
de osso em forma
pouco farta.

Infâncias fantásticas
em ruas, curvas, becos, novas ruas
estreitas, nuas
em aço e asfalto,
brutos
sinais de si
finos signos
fazendo-se faca
em tons ligeiros
de fantasia e fuga.

Um menino, um pequeno
menino
faz com que sintas incontrolável pavor.
Imaginas
que carregue punhais
nas falhas dos dentes.
Respiras fundo,
apressas o passo,
atravessas a rua.
E de fato ele te apunhala
quando menos esperas.

Um feio, raquítico menino
violenta sozinho
a paz do brasil.
Queimem o pequeno assassino
- salmoura e urina
já medo não fazem -
deitem-lhe gasolina
e fogo às carnes,
às veias estricnina
crack ao cérebro
ácido às narinas.
A ferros, dentes e ossos castigai -
enterrai-o vivo
com uma prece
aos ouvidos
- ave, ave
ave maria -
seu coração
só de jesus
sua alegria
a santa cruz.

E o Condor da América
livre de andradas e colombos
pernadas e quilombos
em branca túnica confeccionada a tempo
- mortalha de monge de carnaval,
brasileiro de samba e pandeiro,
maioral
brisa que beija e balança
- esvoaçante pendão,
cordial, altaneiro,
ainda que algo impudente
em seu generoso
jeito de esvoaçar -
abriga em largo cordão
um capitão do mato
um capitão bicheiro
um membro comunitário
um general de pijama
um socialista otário
um preto de fraque
um branco frajola
um valentão bolha
um malandro agulha
um juiz de aluguel
um rei mago
e uma bunda trêmula.

E sob os coqueirais repousam,
demasiadamente infames,
nenhum coco inoportuno,
os barbeiros de defuntos;
uns falsos baronetes
uns finórios menores
uns marmanjões sociais;
verminália
oleosa
imprestável

- emoldurados
antepassados
de si mesmos
-entre brazões
bronze sob musgo
submodernidades
poeiras antigas
e outros objetos
igualmente inúteis.


carnaval, boca do lixo / boca do luxo  
 

"Tira esse canto murcho da viola
vira esse disco micho na vitrola
gira esse corpo frouxo e rebola
agita esse passo troncho, desenrola
bota essa marcha-rancho na cachola
tira essa mão trouxa da cabrocha."


Dança sem mangue nem sangue
avenida rio branco, exangue
pança cansada de pança
riso raso, resto de rosto.
Pelo menos vamos estragar o asfalto
e a sola do sapato.

Esgotonautas atravessamos
o solo àspero, duro
chão de São Paulo.

No Pátio do Colégio
saudade;
solitário,
o coração paulistano
de Mário de Andrade.

Na Praça da Sé reunidos
contos do vigário, otários,
apocalipses missionários
infernos fervendo bocas
pregos pregando narizes
cobras curando varizes
- e passam enterros e gatunos
professores e alunos,
estupradores engraxam os sapatos.

O Viaduto do Chá
sem condes
sem bondes
sem suicidas
apenas o relógio do Mappin
avisando
que tua hora está próxima
devedor.

Avenida São João
rumor de festa
restos de batom
cheiro de sexo.

Morena da rua Aurora,
morena que não
me fez penar;
morena escura
em noite
sem luar;
morena imensa
com fome
de devorar.

Ela largou uma gargalhada escandalosa
e disse que não era nenhuma pivetinha
dessas que namoram depois das sete
e se encantam com versos alusivos à data
e à meia-noite perdem o cabaço.
Pegou o vestido, se vestiu,
pegou a peruca no cabide
e foi até o espelho
para nunca mais voltar.

- Eu sou a tal da Avenida São João
a que não se fingiu de morta
a que olhas de lado.
Eh, cara de belzebu
boquinha de cu
olha de lado!

Pensas que sou Mary, a tifóide?
a tuberculosa que escarra
na limpidez da tua água?

Ode marítima,
sou a sereia dos naufrágios
a ninfa obscena
a embarcada da Ilha dos Amores
a que matou de lágrimas
uma noiva deixada em Sagres.

Puta?
Perpétua
louca
que da ostra
escapa
sou a pérola
sou a pura
fascinação.


fim de século  
 

poetas que, direta ou veladamente, são aqui citados:
Aldir Blanc, Bertholt Brecht, Ezra Pound, Federico Garcia Lorca, Vladimir Maiakóvski.


Revolta-te contra essa cara
aborrecida.
Espelho,
ao começo do dia.

O sentimento da morte
induz à percepção
da descontinuidade histórica.
Útil senti-la.

Revolta o dia. E o dia
quem sabe revolto
deixará o que ficou
onde preferiu ficar
- na memória, onde será útil,
mas não como horizonte
- isso nunca.

A merda fóssil já foi revolvida.
O poeta Vladimir Maiakóvski matou-se pouco antes.
1930 foi um mau ano para a poesia.
O dirigente comunista Mikail Tomsky riu desses homens sensíveis:
- o cárcere curaria suas angústias.
Anos piores viriam a seguir
- 30 foi uma década dura
mesmo para homens duros.
E, em uma noite insuportavelmente silenciosa e longa,
o ex-dirigente Mikail Tomsky
arrebentou o crânio nas paredes de sua cela.

Próximo à cidade de Granada,
no mesmo local onde teria existido
uma fonte de lágrimas,
um homem disparou dois tiros inúteis
no cadáver
de Federico Garcia Lorca.

Talvez ainda ouvisse os ecos
de Isabel, a Católica, filha da Louca,
madrinha da Santa Inquisição,
que ordenou um dia:
- queimem todas as mourarias de Espanha.

E brandia
o triste Cristo
medieval, tosco em madeira velha,
feio, angustiado - culpado?
- da breve, pagã
ressurreição da carne.

 

Estamos vivos,
camaradas passados.
Não vimos a guerra,
apenas ouvimos falar.
E isso decerto fez diferença.
Há tempos ocultamos cadáveres
sob a luz do dia.

Manhã política das multidões
pressa dos trens,
a leste, a sul, norte, oeste,
pobres inorgânicos
alheios aos partidos políticos
modernos e de massa,
aos secretários gerais com plaqueta na porta,
ao tilintar brechtiano dos telefones,
milhões de miseráveis nutridos
de algum socialismo e barbárie
- o tempo vencerá toda ilusão?

Talvez olhando esses anos
e neles pressentindo sua sombra,
o velho demente do povoado
a quem até crianças apedrejam -
e já velho demais para fazer amigos,
Ezra Pound,
poeta e criminoso,
ergueu ainda uma vez
a sua voz:

"A formiga é um centauro
em seu mundo de dragões.
Abaixo tua vaidade,
eu digo: abaixo!"


O século entre os dedos
derramado,
ah, compadre!
onde está tua menina amarga?

- quantas vezes te esperou,
quantas vezes te esperava,
cara fresca, pelo negro,
nesta morta varanda.

Mas, ter batido com decência
para que um cego enxergasse,
também isto é vaidade?

"Não.
Aí está toda a diferença:
ter feito ao invés
de não ter feito."