voltar Chico Flávio Rodrigues
   
Soneto infanticida  
Minha noção de prazer é restrita  
As três cores  
Poesia temporã  
Falso degrau  
   
 
 
     
Soneto Infanticida    
 

Diviso na poça d'água turva

um pequeno braço menino

mutilado como o corpo

de uma criança que matei


Retiro o que resta daquele corpo

e choro e sofro e rolo pelo chão

abraçado ao pequeno esqueleto

de uma criança que amei.


Desvairado, como um assassino

simulo todas as defesas viáveis

à ilusão de meu superego

Depois, dou entrevistas, bebo
champanhe

ajo naturalmente fiel ao meu álibi

e impune como sempre vou à
cidade...



(1978)

 

 
Minha noção de prazer é restrita    
 

minha noção de prazer é restrita

no paladar
nem o gosto encorpado do melhor vinho,
ou do melhor champagne,
ou do brandy, do conhaque, da cachaça de alambique:

néctares, mas não se equiparam à vida

na visão
nem a paisagem de lagos entre a neve e o sol
nem a tela de Da Vinci na maior sala do Louvre
ou mesmo o instante em que a luz amanhece:
brilhantes, mas não superam a vida

no olfato
nem o éter que exala do corpo em calores do amor
nem o perfume suave da brisa da manhã em estado de paz
ou mesmo o cheiro das flores em seus jardins naturais:
lindos, mas não se igualam à vida

na audição
nem o cântico mais remoto de um medieval mosteiro
nem a frase de jazz mais delicada de Brownie
nem a música de Sarmento em letra de Monteiro
maravilhas, mas não maior que a vida

no tato
nem o formato generoso das nádegas,
nem o roliço das coxas,
mesmo as outras avenidas do corpo,
êxtases: mas nada transborda a vida



(2003)

 

 
As três cores    
 

Ao verde cabe as cores da manhã
onde nuvens e sonhos transitam
histórias pueris como àquelas do
primeiro amor.

Ainda à luz do verde, comprimem-se
os afagos do amanhecer de corpos
pós-amassados,
riscados de gritos abafados do rito
da troca.


O vermelho pertence à mulher
é a definitiva cor para todas as tardes
e arde aos olhos por ser a própria vida em sua cor maior.

Às margens do vermelho, a vida
escorre
soberanamente repleta de miudezas
lindas
que arranjam o corpo em evidência
de entrega.


restam os matizes do cinza
à fronteira do preto.
é a noite: o endereço do homem que
teme a nuvem
que se esconde do vermelho que
mancha.

é lá, que estórias sombrias dos
segredos e dos medos
à sombra do silêncio da ausência da
luz da manhã e da tarde,
são expostos em cinzenta vitrine
os fóbicos
famintos de si mesmos.



(
2002)

 

 
Poesia temporã    
 

Tanto tempo faz que não escrevo
que nem penso e nem vivo
e me torno surdo àquela conversa franca
comigo mesmo
enquanto as contas e as obrigações
vão devorando os meus poemas
e a retinopatia covardemente
impedindo
quaisquer possibilidades de prosa

Ler - para os meus olhos de hoje
está tão difícil quanto encontrar a paz

É preciso pois reunir todas as forças
mesmo esses parcos pensamentos inexatos
e compor um urgente texto que me resgate
do prematuro silêncio
pois ainda
existe a música



(1989)

 

 
Falso degrau    
 

Como antes
ou como nunca

A forma do verso
faz a forma da vida

E ainda há de sobrar
Alguma coisa.


Como agora
Ou como antes

A força da vida
Reforça o verso.

E talvez sobre apenas
Este triste silêncio.



(1979)