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De volta à caverna  
Homo Faber  
Jogo da velha  
Miserere Nobis  
Ponto de equilíbrio  
   
 
   
De volta à caverna  
 

Estou sendo atropelado
pelo mal do século.

Em meio a urgências,
pilhas de papéis,
endereços eletrônicos,
livros,
hora marcada,
vida espalhada,
empilhada,
estresses,
compromissos,
comprimidos...

Minha casa com varanda
no fim do mundo
fica, cada vez, mais distante.
Meu sonho
cada vez mais na contra-mão,
num canto qualquer
do meu passado
entre saudades
e obrigações do dia a dia.

Sem opções, vou à luta.

Os dias me engolem
no engarrafamento das ruas,
na roda dos ventos,
nos atrasos,
nos desacertos com os amigos,
no adiamento dos encontros
e da própria vida.

Até que algum tropeço,
uma doença ou depressão
nos deixam cara a cara
com o espelho,
com a morte, em vida.

O equilíbrio vai pro ralo,
a paciência pra Santa Cruz,
a razão pro pólo Norte, pra Plutão,
pra PQP...

A vida vira palavrão.

A busca da paz
para no vermelho,
a simpatia, na multa do guarda.
A educação, no suborno.
A cabeça entra em órbita,
na cruz diária.

Dá vontade de gritar...

Quero fugir
pro interior de Minas,
pro interior de mim.

Quero viver entre animais...
- quase sempre
menos animais
que nós -

Fugir dos problemas,
impostos,
condomínio,
pedágios,
da prisão da agenda cheia,
do bolso vazio,
do sonho vazio...

Eu não planejei nada disso...

Planejo sim
sair desse emaranhado:
carinhos com hora marcada,
cobranças,
eficácia misturada com desamor.

Sem saída,
muitas vezes,
o primeiro a me cobrar fui eu.

Eu não sei mais
se é vida real.
Eu não sei mais
se sou real.
Eu só sei
que não quero essa realidade!

Não quero ser prisioneiro
do ladrão,
do corrupto,
da pressa, da pizza, da Coca-Cola.

Procuro um ombro amigo,
ligo pra alguém
bato um papo,
confesso que engoli muito sapo,
que preciso incrementar
meu sonho,
meu Zen.

Mando um beijo.
Desligo.

Rezo pra Deus,
leio um livro.

Posso vir a ser tudo,
menos refém.

Para mudar esse fado
serei o bufão do entrudo
mas, pra mediocridade,
nunca direi amém.



DC 16/5/2001


Homo Faber  
 

Sou um criador contumaz.

Eu não sei mais
se eu é que faço poesia
ou se é a poesia
que me faz.



DC 20/10/1993


Jogo da velha  
 

EU

Mamãe, posso ir?
Quantos passos?

ELA

Fé em Deus e
pé na tábua.
(O assoalho rangendo)

EU

Com quantas naus
se faz uma vitória?
Com quantos paus
se faz uma trapaça?

ELA

Aquele que há de vir
há de ver.
Não corra
atrás de mentira
feito barata tonta.


EU

Você joga drama
ou xadrez?
Joga claro
ou calado?
Que jogo que você joga?
e, se joga,
de que lado?

ELA

Não jogo pedra nas telhas
do caminho do passado.

EU

Mamãe, posso ir?
Quantos passos?

ELA

Aqueles que derem espaço;
mas não esqueça
a outra face da moeda:
se és pedra, vales pedra
até que quebres telhados,
até que quebres vidraças.


EU

Então
o que é bom pra Deus
pode ser bom pro diabo.

ELA

Que bem te faz
o mal que te faço!


EU

E se eu te sufoco
com o meu abraço?

ELA

Faço outro jogo,
outro amor,
armo outro laço.
Todo gesto é palavra
fora da enciclopédia.


EU

E quem dança
conforme a dança?

ELA

Se dança
conforme a dança
sem olhar nos olhos
da dança
não sabe o sabor
da mudança
tem medo,
não sabe dançar.


EU

Mas ninguém
começa a ler um livro
pelo final.

ELA

Mas risque o livro,
leia nas entrelinhas,
veja as personagens
da dança
fora do papel - principal -
escreva
o que faltou ser escrito
porque mais importante
que o autor
é o que deve ser dito.


EU

Mas quem diz do bem?
quem diz do mal?

ELA

Não seja romântico:
invente um coração.


EU

Não gosto de pensar
no barulho de lata
batendo no peito.

ELA

Então
invente um pensamento
que não bata no coração.

EU

Não gosto de fugir
dos males e dos sonhos
pela porta dos fundos.
Nem que Deus me perdoe
olho nos olhos do mal
(se é um espelho, um retrato)
sem um veneno mortal.

ELA

Só porque
homem não leva desaforo
pra casa?
Não faça da lei uma arma.
O maior mal que te acontece
é o medo do mal.


EU

Ponha as cartas ma mesa.
Um mata o outro
mas o outro
não mata o um.

ELA

(Entre o ditador e o ditado)

Cala-boca tira mancha!


EU

Vermelha de sangue.
Que Deus nos proteja!

ELA

Cala-boca tira mancha (*)

EU

enquanto
a fome devora o estômago
do mundo.

ELA

Não seja piegas,
não se arvore mártir
de um martírio sem sangue.

EU

E tudo que seu mestre mandar,
faremos todos?

ELA

Não seja tolo,
não abra mão do seu jogo:
em briga de malandro
quem bobeia se machuca.

EU

Mamãe, posso ir?
Quantos passos?

ELA

Aqueles que derem espaço;
mas não esqueça
a outra face da moeda.

FIM DE JOGO

Quando Deus criou a palavra
sabia do risco que corria.




(*) propaganda de produto contra manchas em roupas, muito
vendido nos trens da Central do Brasil

DC Março/1974 - Abril/1978.


Miserere Nobis  
 

Miséria
é o monopólio do amor,
miséria
é a privatização da liberdade,
miséria
é o desrespeito ao bom senso,
é a disfarçatez,
a arrogância,
miséria
é se brincar com coisa séria,
miséria
é fechar os olhos pra verdade,
miséria
é tratar o próximo sempre à distância,
miséria
é a omissão a cada indignidade,
a cada golpe,
a cada violência,
miséria
é avançar o sinal pra não ser diferente,
miséria
é não ter nem a cachaça pra enfrentar o frio,
miséria
é ser valente garantido pela impunidade,
miséria
é ser assim:
sem princípios nem fim.

Ser, egoisticamente, poderoso
e vazio.



DC 26/8/1993


Ponto de Equilíbrio  
 

Eu não sou estátua
para ficar plantado na praça
feito história.
Eu sou torto como o corpo
que se arremessa
a cada novo passo
para a nova conquista.
Eu sou o desequilíbrio momentâneo
e a certeza do rio
que não vai ficar eternamente preso
nas suas margens.
Eu sou o amor
que não está preocupado
em aprisionar os olhos da amada,
os sonhos da amada,
seus erros e os meus.
Eu sou a traça
que atravessa o mundo carcomido
criando a condição
da luz no fim do túnel
porque
de tudo que é mau,
se tira sempre algo de bom
como, da serpente,
se aprende a vigília;
porque
de tudo que é bom,
deve-se tirar sempre
o que não presta
como, do pássaro,
não se deve buscar a fragilidade.

Eu sou aquele que luta pela paz
sem precisar ferir
os companheiros do caminho.
Eu sou o negro que nasceu branco,
a prostituta que não se vende mais,
o palhaço que fala sério,
o impuro que não macula,
o inimigo que não se vinga.
Eu sou a feiúra
que você acha bonita
quando se olha no espelho.
Eu sou igual ao espelho.
Eu sou igual a você.
Eu sou a pobreza
que não se envergonha de ser pobre,
que não se acostuma
a pedir esmolas pelas ruas.

Eu sou a vara
que levanta a lama do fundo do rio,
eu sou a lama do fundo do rio,
eu sou o rio.
Eu só não sou estátua
que fica gloriosamente plantada
no centro da praça
como se fosse história.




DC Novembro/1985