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| Herança |
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Eu,
descendente de El-Rei Sancho I,
exijo doces as vozes, brandos os gestos.
Ainda ardem em mim as febres
que D. Maria Pais Ribeiro acendeu
no peito de El-Rei... E estremeço
calafrios, se me surgem de repente
peles morenas, dentes brancos,
olhos marítimos.
Eu, descendente de El-Rei Sancho I,
execro punhais e grilhões
que se ocultam entre sedas e rendas.
Em mim, repercutem ainda os arroubos
que D. Maria espertou em El-Rei,
e o que não é enlevo sempre me desacerta.
Requeiro mágica, mistério;
demando música, mesura.
Eu, descendente de El-Rei Sancho I,
reclamo mansas as palavras, ternos os mimos.
Ainda queimam em mim os desejos
que D. Maria Pais Ribeiro ateou
no coração de El-Rei... E tremo
arrepios, se me faltam de repente
lábios ávidos, corpos frementes,
suspiros de amor.
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| Ao
meu redor |
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Tudo
acontece ao meu redor:
vozes cantam melodias,
ecoam algaravias,
gestos dançam sinais,
corpos se movem...
Ao meu redor, os verdes
oscilam ao vento,
o mar sobe e desce marés,
o dia clareia e anoitece...
Tudo existe ao meu redor:
a cidade que levanta muros,
esparrama-se avenidas e ruas,
corre pressas, grita ruídos,
pulsa nervosismo metropolitano...
Ao meu redor, o hálito dos anjos,
histórias e memórias, intenções...
Tudo está ao meu redor:
toda a geografia do planeta,
todo o resto do sistema solar,
toda a imensidão da galáxia,
todo o infinito do universo...
Ao meu redor, a vida e seu inverso.
Tudo
acontece ao meu redor...
E, dentro do peito,
o coração - sístole, diástole
-
bate incontinente. Sozinho.
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| Sobrado |
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Esses
velhos sobrados
me emocionam
como se fossem
pequenas flores murchas.
Essas
grades antigas
enferrujadas
me consternam
como se fossem mãos.
Talvez
porque eu tenha
um sobrado velho
dentro de mim.
Talvez
porque haja
grades enferrujadas
ao meu redor.
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| Instrução
de vôo |
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Para
voar,
não basta bater as asas
(ensinaram-me os pássaros):
antes,
é preciso a coragem de saltar
no vazio.
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| Em
nome da poesia |
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Venham
asas de borboletas,
reminiscências de outra realidade,
diáfanos fiapos de sonho,
irresolutos desejos
ou venham o bafo ébrio
das deusas greco-romanas,
o cheiro brabo das amazonas,
o perfume feiticeiro das iabás,
o aroma marinho das sereias
ou venham o eflúvio letal
da cona rubra das valquírias,
a exalação da vulva negra das medusas,
a fragrância do gineceu verde das fadinhas
ou venham verrumas e farpões,
navalhas bem afiadas,
estiletes traiçoeiros,
giletes rápidas
ou não venham mais
do que sustos anônimos...
O que vier eu traço.
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