voltar Luis Alfredo Milleco
   
Espelho da alma  
Toda Vida  
Mudança  
A terra  
Das metades  
   
 
   
Espelho da alma
(depois do título do Vítor)
 
 

Min'alma sempre distraída
de tão sincera
guarda uns sustos de luar
da minha Terra

banha-se em mar de cachoeiras

min'alma é feito feiticeiras
que voam soltas por aí

de um lado só
meio saci
min'alma pula o cerco
que há aqui

alma no fundo, de outra era
de outro mundo
alma penada pela amada ainda querida

alma partida

min'alma lavadeira
canta e sonha
sonha e cansa
cansa e canta
a vida inteira


Toda vida  
 

Toda minha vida, adivinhei sonhos
profetizei amores, redescobri minha Terra

Toda minha vida, mergulhei mares
encontrei pororocas, na confluência das Américas
multipliquei peixes, morri de fome

Toda minha vida, dancei a valsa da despedida
apaixonado por estrelas, abandonado, noites a fio,
Encontrei um amigo na mesa do bar
Outro, do outro lado do mundo
falando línguas estranhas
Dei um abraço na filha que viria
Acreditei nas bruxas, seus sarampos

Toda minha vida, ressuscitei no sétimo dia
depois de padecer nas mãos de Deus
Sete vezes também, quis do amor
a tentação do único olhar

Toda minha vida, alimentei ilusões
a pão de ló.
A sabedoria ea a grama das virtudes
cambaleava na grama

Toda minha vida, tropecei em pedras finas, praias desertas
andei léguas e léguas, no contracanto das marés
Toda vida, lí Cortázar, Aldir, Caio
Cecília, Drummond e ouvi Elis
Toda minha vida me cerquei de luzes
e me ceguei, em outros.


Mudança  
 

Esse ano, mudei de casa
estou aqui
com um punhado de coisas
recebendo visitas
servindo chás

Esse ano, mudei de nome
de nomes antigos me chamavam

eu já não respondia...


A terra
(Aos sem...)
 
 

Se ao menos a terra, eu tivesse
Se ao menos o céu, me atendesse
mandassem seus anjos em queda
quem sabe, até eu merecesse
quem sabe, eu tivesse saída
um meio empurrão de S. Jorge
um toque de Aparecida

Se ao menos, o céu me acenasse
com sóis menos incandescentes
talvez os anzóis indecentes
quisessem outra pescaria
e a guerra do meu dia a dia
não fosse conter a euforia
dos anjos lá das alturas
tão íntimos da covardia
tão crédulos na tirania

Um dia, não é outro dia
Um dia, não é outro dia
Um dia não é outro dia


Das metades  
 

Em metades
te procurei
para que as etapas
formassem meu encontro

Em metades
te ouvi
para que os sons
fossem formando
minha cantiga

e te amo
de metades em metades
por não saber
te amar, ainda,
por inteiro