voltar Roterdam Salomão
   
agora sou notado...  
se minha cadeira...  
é perdida na pedra...  
se Deus me permitir...  
quando o menino...  
   
 
   
 
 

agora sou notado
pelos acessórios
que a vida repousa
no meu abandono.

a ausência prematura
de uns poucos cabelos
faz presente
os meus trinta anos

o tempo tinge o passado de névoa
e meus cabelos pingam brancos
na memória

a cada sono
sonho menos
com meu despertar

cada dia riscado na folhinha
deixa marcas em meu rosto
e meu espelho faz-se crítico
e portador
de minha agonia

recluso aos limites do tempo,
restam-me
os espaços da mente
prá brincar de eterno...


 
 

se minha cadeira está vazia
e a mesa posta
há um ritual a cumprir.

lavo as mãos
à minha ausência
e pretendo o silêncio
como forma de alimento.


 
 

é perdida na pedra
que minha sombra
quebra a natureza dura
da pedra escura.

é a sombra de meu outro eu
que fere e sangra
a emoção da pedra.

é meu corpo
pisando a pedra
dividindo a unidade da pedra,
transformando a sombra,
a minha sombra,
em pedaços de mim...

o caminho covado na pedra
acolhendo a sombra,
os pedaços de sombra,
os pedaços de mim...


 
 

Se Deus me permitir vou pecar um pouco
Por exercício e necessidade d'alma

A madrugada é barulhenta
Tira o sono das minhas angústias
E as preces de nada valem.

Se Deus me permitir vou blasfemar um pouco
Só mesmo um pouco, na medida do desespêro
E talvez eu entenda de recuos, de enganos,
De sensos distorcidos por uma ânsia de nada...

Se Deus me permitir vou buscar ídolos
À imagem e semelhança de minhas fantasias,
Vou construí-los, contudo,
Da minha realidade

E se Deus me permitir, quem sabe,
Alcanço sua benção
E reconheço sua face...


 
 

QUANDO O MENINO
COMPLETA A SUA ARTE
E ME ABRAÇA
COM O DESESPERO DO NÁUFRAGO
EU IMAGINO COISAS DE AMOR
E PRETENDO A INFÂNCIA
PARA TODA A HUMANIDADE.